Picasso e outros, adieu

Os aeroportos podem inviabilizar as artes plásticas no Brasil

Um golpe baixo, uma rasteira, um bater de carteira está sendo aprontado em surdina contra a cultura brasileira. Só fiquei sabendo porque fui alertado por meu amigo Afonso Borges. Pelo que entendi, as concessionárias que operam os recém-privatizados aeroportos de Guarulhos, do Galeão e de Viracopos interpretaram à sua vontade uma norma da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e se elegeram sócias dos produtores de eventos de artes plásticas no país.

Segundo essa interpretação, a cobrança de tarifas de armazenagem de obras de arte nos aeroportos passa a ser regulada não mais pelo peso das peças, como sempre foi, mas pelo seu valor de mercado. Mercado este em que, como se sabe, o valor de um quadro é algo que foi se estabelecendo no decorrer de séculos, a partir do julgamento de pessoas cujo entendimento nem sonhamos em roçar.

Pois, sem que seus executivos saibam distinguir um Tintoretto de um Caravaggio, sem ter de se responsabilizar pelo seguro dos quadros, sem dividir as despesas da exposição e sem precisar investir um centavo, as concessionárias, com uma penada, apossaram-se de um naco do valor das obras-primas.

Um aeroporto, como bem diz Afonso, é apenas um aeroporto — uma porta de entrada, seja de carga ou de pessoas. Imagine se a taxa de embarque que se cobra neles começar ser calculada pela importância do passageiro —como não se sentirão certas pessoas cujo ego pesa mais do que elas próprias? O Brasil parece cada vez mais hostil a quem deseje investir nele, explorar suas potencialidades ou apenas vir conhecê-lo.

O nome dessa manobra, segundo Afonso, é extorsão. E, como ela incidirá nos custos de exposições internacionais, o provável é que estas deixem de vir ao Brasil. Donde, Toulouse-LautrecKlintPicasso, Dali, Kandinsky e tantos outros, adieu.

 Ruy Castro
Fonte: Folha de São Paulo
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