Geraldo Knippling, o piloto da Varig que se tornou uma lenda da aviação mundial

Amanhã, a Varig completaria 93 anos de sua fundação. O jornalista Mário de Albuquerque, autor do livro Berta – Os Anos Dourados da Varig, aproveita a data para homenagear todos os tripulantes que ajudaram a escrever a história da empresa. Mário elegeu a figura de Geraldo Werner Knippling, segundo ele “o mais notável  piloto de todos os tempos”, como símbolo desta odisseia. Knippling, que faleceu no último dia 13 de abril, aos 97 anos, alcançou 24 mil horas de voo e 16,8 milhões de quilômetros voados, o equivalente a 429 voltas ao redor do mundo ou a 22 viagens de ida e volta até a Lua. O relato a seguir justifica plenamente a escolha.

Reprodução / Arquivo Passoal
Comandante Geraldo Werner Knippling (1923-2020)Reprodução / Arquivo Passoal

O voo 850 para Nova York, realizado pelo Super Constellation da Varig, prefixo PP-VDA, em 14 de agosto de 1957, foi um dos mais espetaculares episódios da aviação comercial brasileira. Tinha no comando o piloto Geraldo Knippling. Decolou de Porto Alegre, passou por São Paulo, com escalas pelo Rio de Janeiro, Belém, Santo Domingo e, finalmente, chegaria a NY, o que acabou nunca acontecendo.

Após decolar de Belém, o motor N.2 apresentou pane, sendo necessário desativá-lo para evitar forte vibração. Como Belém fechou, com nevoeiro, o voo prosseguiu com os três motores restantes, pousando sem restrições no aeroporto internacional de Ciudad Trujillo, atual Santo Domingo, na República Dominicana, onde os passageiros foram acomodados. De acordo com o manual de operações, o voo foi liberado para seguir trimotor até Nova York, levando apenas a tripulação técnica e dois comissários. Depois de efetuada a troca do motor, a aeronave deveria voltar para resgatar os passageiros e o restante da tripulação.

Conforme relato do comandante, próximo a Santo Domingo, em altitude de cruzeiro (12 mil pés), um estrondo foi seguido por forte vibração, com alarme de fogo no motor N.4, apagado pelos extintores. No entanto, a hélice se desprendeu, levando parte da carenagem e atingindo o motor N.3, ao lado, que ficou totalmente desbalanceado. A vibração da aeronave chegou a ponto de impedir a leitura dos instrumentos. Com apenas o motor N.1 funcionando, a velocidade da aeronave foi reduzida e a cabine acabou despressurizada. A tripulação se preparou para o pior. Pousar no oceano era o que restava. Descer no mar já é situação crítica sob qualquer circunstância. Mais grave ainda é realizar uma manobra quase suicida, usando apenas um dos motores de um enorme quadrimotor.

Knippling iniciou os preparativos para enfrentar vagas enormes e realizar o milagre de impedir que o Constellation se desintegrasse ante a violência das ondas. A tragédia anunciada transformou-se numa amerissagem perfeita. Além de piloto consagrado, Knippling era também um reconhecido velejador. Sabia que as grandes vagas são constantes, mas ondas que vêm ao sabor do vento variam mais. Se o vento fosse perpendicular às vagas, não poderia pousar contra as ondas. Em fração de segundos, resolveu descer a 45 graus. 

Reprodução / Arquivo Passoal
Super Constellation era o maior quadrimotor da épocaReprodução / Arquivo Passoal

A aeronave atingiu o mar desacelerando rapidamente e deslizando de lado, ficando nivelada sobre a água por alguns minutos. O comandante, já com água nos joelhos, chegou às portas de emergência, percebendo que, pela violência do pouso, a cauda havia se separado da fuselagem, levando junto um dos comissários, que foi jogado ao mar infestado de tubarões.

Agora, tudo dependia das balsas salva-vidas colocadas no interior das asas. Puxando uma alavanca de emergência, elas seriam liberadas e infladas automaticamente. Estarrecido, constatou que as quatro balsas tinham problemas. Com o impacto, os flaps foram arrancados e tiras de metal causaram danos nas embarcações. Uma delas, em melhor estado, foi usada no resgate. Enquanto uns remavam à exaustão, outros retiravam a água que teimava em inundar o bote. 

O Constellation (ou o que restava dele) estava a 500 metros da costa ao norte da República Dominicana, o que facilitou para seguirem rumo à terra firme. O avião afundou em poucos minutos, a uma profundidade de 40 metros, e nunca se soube do seu resgate. O comandante e sua tripulação foram aclamados pela bravura. Knippling tornou-se uma lenda da aviação mundial.

Fonte GAÚCHAZH

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