Capital estrangeiro pode mudar mapa do setor aéreo no Brasil

Se o Senado aprovar o texto da Medida Provisória 714, que abre ao capital externo o direito de controlar até 100% de uma companhia aérea no Brasil, a Gol não será a única beneficiada. Avianca, Azul e Latam também, dizem especialistas que acompanham o setor.No redesenho do transporte aéreo de passageiros no Brasil, aéreas dos Estados Unidos podem ganhar protagonismo, seguidas por europeias, apontam os analistas.

Mas esse processo não será imediato por causa da regulação e da conjuntura brasileira, ainda recessiva. “Vemos a Gol como um alvo de aquisição para a Delta Air Lines “, disse o analista da Bradesco Corretora, José Cataldo, sobre a segunda maior aérea dos Estados Unidos do capital da Gol. Segundo ele, a americana – dona de US$ 53 bilhões em ativos e que lucrou US$ 4,5 bilhões em 2015 – mostra isso ao dar suporte à sócia brasileira. “Não há nada. Nada”, disse o vice-presidente financeiro e de relações com investidores da Gol, Edmar Lopes a jornalistas na segunda-feira, quando perguntado se há, neste momento, alguma negociação. A pergunta surgiu por a Gol colocou no programa de reestruturação de sua dívida uma cláusula que aumenta o prêmio dos credores se houver uma troca de comando na empresa até 2018.

Analistas ponderam que comprar a Gol agora custaria à Delta muito mais que os cerca de R$ 1,1 bilhão de valor mercado da brasileira, pela cotação atual das ações, porque teria que absorver dívidas. A Gol tem ainda como sócia a franco-holandesa Air France-KLM, que detém 1,5% do capital não votante da empresa. Por enquanto, o grupo descarta elevar a fatia no Brasil,  mas essa alternativa permanece no radar, apurou o Valor. A Gol precisa de dinheiro porque a companhia tem mais de R$ 16,3 bilhões em dívida bruta ajustada, ou 9,4 vezes mais que o lucro operacional (Ebtidar).

As aéreas brasileiras encerram 2015 com um grau médio de alavancagem – dívida sobre Ebtidar – de 7,6 vezes e caixa em relação à receita líquida de 18,7%. O índice da Gol nesse indicador é de 18,2%. Para chegar ao piso da referência do setor, de 20%, as empresas brasileiras precisam encorpar o balanço. Após a Gol, a aérea seguinte a demandar capital seria a Avianca Brasil, controlada pela família Efromovich, também dona da Avianca Holdings, da Colômbia. José Efromovich tem planos de juntar as duas operações. O Valor apurou que, em um segundo momento, a ideia é buscar sócios estrangeiros para aportar recursos na companhia. O grupo contratou bancos no exterior para conversar com interessados, segundo fontes do setor. Efromovich já disse que a holding colombiana pode comprar a operação brasileira. O faturamento da holding colombiana é de US$ 4,8 bilhões. Tem US$ 6,6 bilhões em ativos, dos quais US$ 480 milhões em caixa.

A Avianca Brasil tem R$ 83 milhões em caixa e receita anual de R$ 2,6 bilhões. As obrigações, decorrentes de operações de arrendamento de aeronaves e motores até 2019, somam US$ 5 bilhões, sendo US$ 1,7 bilhão em 2017. Já a Azul, terceira maior aérea do Brasil, recebeu no ano passado US$ 100 milhões da United, por 5% do capital não votante, e outros US$ 450 milhões do conglomerado HNA, dono da quarta maior holding de aviação na China, por 23,7% de participação sem direito a voto. Esses aportes deram fôlego à Azul, que registrou prejuízo líquido de R$ 754 milhões em 2015 e vinha, desde 2013, tentando captar recursos na Bovespa por meio de uma emissão de ações (IPO).

A empresa tem caixa R$ 743 milhões, ou 12% de sua receita anual. O presidente da companhia, Antonoaldo Neves, diz que a empresa não precisa de nova injeção de capital agora e lembrou que a companhia até usou recursos para aportar € 90 milhões na portuguesa TAP, que foi privatizada ano passado. O consórcio Gateway, que assumiu a aérea lusa, tem no bloco de controle o empresário David Neeleman, também dono da Azul, que poderia unir operações com a TAP. “A verdade é que o controle estrangeiro informal em aéreas brasileiras existe”, afirma a sócia da Tozzini Freire Advogados, Ana Cândida Carvalho, especialista em aviação. Ela não citou casos específicos. Mas além dos aportes estrangeiros na Azul – que correspondem hoje a 28,7% dos direitos econômicos da companhia – há ainda o caso da maior empresa brasileira.

A Latam, cuja sede é em Santiago, no Chile, é controlada pela família chilena Cueto, com 24% da holding. Mas por meio de um acordo de acionistas, a operação brasileira tem como controladora a família Amaro, fundadora da TAM. Os brasileiros têm apenas 12% do grupo controlador. Desde a fusão entre a TAM e a chilena LAN ser aprovada pelas autoridades no Brasil e no Chile, em 2012, os acionistas chilenos já aportaram mais de R$ 3 bilhões na brasileira. Em entrevista ao Valor em 2 de junho, Claudia Sender, presidente da Latam Airlines Brasil disse que a flexibilização da aviação doméstica para o capital estrangeiro fomenta a atração de recursos para o país. As últimas operações feitas pela Latam no mercado de capitais, em 2014 e 2015, quando levantou cerca de US$ 2 bilhões entre dívida e novas ações, não foram acompanhadas pelos brasileiros da família Amaro. Esse processo vai continuar, dizem analistas, nas próximas captações.

Isso explica o motivo que levou a Latam a encerrar o programa de recibos de ações da empresa na Bovespa, retirando de mercado os BDRs. Restaram as ações negociadas em Santiago e os recibos de ações americanos (ADRs), listados na Bolsa de Nova York. Uma oferta de ações poderia ser uma forma de a Latam atrair a American Airlines e o grupo europeu IAG, dono da inglesa British Airways e da espanhola Iberia. No ano passado, a Latam assinou com essas duas empresas acordos para operar em conjunto – dividindo custos e lucros – nas rotas ligando a América do Sul e Estados Unidos, no caso da American Airlines; e voos entre os destinos sul-americanos e Europa, no caso da IAG.

Por João José Oliveira | De São Paulo

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