O tráfego de passageiros e de cargas entre Brasil e Estados Unidos vai crescer a uma taxa média de 6,5% ao ano a partir de 2015, quando entra em vigor a última e mais aberta etapa do acordo ‘céus abertos’, assinado entre Brasil e Estados Unidos em 2011. É o que prevê o diretor da Federal Aviation Administration (FFA), Michael Huerta, principal executivo do órgão correspondente à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
“O ‘open skies’ vai ampliar opções de frequências e de rotas, aumentar conectividade e estimular o comércio bilateral”, disse Huerta. “Esse processo também terá impacto em tarifas”, afirmou, projetando que a maior oferta de voos por aéreas americanas e brasileiras reduzirá o preço médio do bilhete após 2015.
O acordo “céus abertos” entre Brasil e EUA foi implementado em cinco etapas, começando em outubro de 2011, quando a Anac autorizou 14 voos a mais para destinos americanos a partir do aeroporto do Galeão, no Rio. Em contrapartida, companhias americanas ganharam número extra de voos para ligar EUA e Brasil.
Outras três etapas foram implementadas em 2012, 2013 e este ano, sempre levando em conta a reciprocidade. Em 2015, rotas novas e aumento de frequência poderão ocorrer independentemente das cotas. A negociação será entre a companhia aérea interessada e o operador do aeroporto, conforme disponibilidade de ‘slots’ – horários para pouso e decolagem.
Segundo dados da Anac, as aéreas americanas Delta, United e American Airlines têm 187 frequências semanais entre Brasil e EUA. Esse número é quase o dobro da oferta atual feita em voos das companhias brasileiras para aeroportos americanos.
Dos dois lados, brasileiro e americano, há planos de aumentar oferta. “Queremos ampliar a oferta para os EUA, mas em destinos que possam ser operados por nossa frota”, disse o presidente da Gol, Paulo Kakinoff, no dia 8 de setembro, referindo-se a destinos como Orlando, atendidos por aviões Boeing 737-800 partindo de São Paulo com escala na República Dominicana.
“Vamos oferecer nova experiência em voos internacionais, com segmentação de tarifas e serviços”, disse o fundador e presidente da Azul, David Neeleman, ao anunciar a encomenda de aviões Airbus A330-200 e A350-900 para atender destinos americanos em abril. Mês passado, a Anac alocou à empresa 18 frequências semanais para voos de passageiros e de carga entre Brasil e Estados Unidos.
A TAM, dona de 84% da oferta internacional de voos feitos pelas brasileiras, também quer elevar a oferta para atender a demanda, considerada crescente pela presidente da aérea, Claudia Sender, que admitiu esse interesse a analistas, durante teleconferência de resultados, em 13 de agosto.
Após a formalização da fusão com a US Airways, em dezembro do ano passado, o vice-presidente sênior da American Airlines para México, Caribe e América Latina, Art Torno, disse ao Valor que o acordo de ‘céus abertos’ é um dos fatores que levarão a companhia a acelerar a expansão no país. “Teremos, além de Copa e de Jogos Olímpicos de 2016, o ‘céus abertos’ em 2015, que permitirão oferta maior de voos”, disse o executivo da aérea, que oferece 110 voos semanais a partir de nove cidades brasileiras.
Na Delta, dona de 42 frequências ligando os EUA a São Paulo, Rio e Brasília, a oferta vai crescer dois dígitos já este ano ante 2013. O diretor da companhia no Brasil, Luciano Macagno, disse que o ‘céus abertos’ vai trazer mais flexibilidade na operação de destinos já atendidos e novos pontos. “Hoje, quando queremos atender uma demanda sazonal, de verão, por exemplo, com um voo novo, o processo demora. Com o ‘open skies’, vamos ter mais rotas e frequências por causa da maior agilidade”, disse.
A expansão projetada pela FAA para a demanda na conexão entre Brasil e EUA, de 6,5% ao ano, é maior que a esperada pelo órgão para o crescimento no mercado doméstico americano, que ficará em 2,2% ao ano. Por isso, executivos brasileiros do setor dizem que as aérea americanas vão ser mais agressivas com o ‘open skies’.
“As americanas já mostraram que têm apetite para ocupar todos os espaços”, disse o executivo de primeiro escalão de uma aérea brasileira. “Quando a Azul anunciou um voo de Viracopos [Campinas-SP] para Nova York, a American lançou a mesma rota quase no mesmo horário”, disse.
O presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz, diz que as companhias brasileiras precisam ter condições iguais às americanas para concorrer. “Por causa do sistema tributário brasileiro e da forma de cálculo do QAV [querosene de aviação] aqui, o combustível representa 40% dos custos das aéreas do Brasil, enquanto nos EUA esse percentual é de 29%.”
“Não dá para entrar na briga direta com as companhias americanas em rotas longas feitas por aeronaves widebody [aviões de maior porte, com dois corredores]”, disse Kakinoff, da Gol. “Eles têm uma escala muito maior”.
Comparando: as companhias transportam quase 900 milhões de passageiros por ano e tiveram receita operacional de US$ 200 bilhões em 2013, ou quase meio trilhão de reais. As quatro brasileiras – TAM, Gol, Azul e Avianca – transportam 100 milhões de pessoas por ano e faturam menos de R$ 30 bilhões a cada 12 meses.
Fonte: Valor Econômico
18/09/2014


