VALOR
Por João José Oliveira | De São Paulo
A Gol é a companhia aérea com a maior exposição ao dólar e a mais dependente da demanda brasileira entre as principais empresas latino-americanas cotadas em bolsa – Latam, Avianca e Copa. Segundo analistas do mercado de capitais, isso explica porque ela é a que mais sofre neste ano para negociar seus papéis na bolsa de Nova York.
Desde o começo do ano, os recibos de ações (ADRs) da Gol negociados na Nyse acumulam baixa de 78,6% – mais acentuada do que as quedas dos ADRs de Latam (57,4%), Avianca (50,5%) e Copa (49,7%).
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O analista do Banco do Brasil Investimentos, Mario Bernardes Jr, afirma que a depreciação do real ante o dólar e a recessão brasileira atingem mais a Gol que as concorrentes. “O real caiu mais que o peso colombiano e o peso chileno ante o dólar. E a Gol é, entre essas empresas, a que tem a maior fatia de receitas em moeda local”, diz. Em 2015, o dólar subiu 32% ante o real, 15% ante o peso chileno e 14% contra o peso colombiano.
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Dólar mais caro significa maiores despesas no setor aéreo porque o combustível – que representa cerca de 40% das despesas operacionais – é cotado em moeda americana, assim como o financiamento das aeronaves.
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Mas no caso da Gol, essa exposição é mais prejudicial porque a empresa gera quase 90% de suas receitas em reais e apenas 10% do faturamento em dólar. Na Latam, as receitas em reais representam menos, cerca de 33%, enquanto na Avianca Holdings e na Copa, mais da metade do faturamento é em dólares.
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Segundo a agência de classificação de risco de crédito Fitch, para cada 10% de depreciação do real ante o dólar, o endividamento da Gol ante as receitas piora em uma vez. De março a junho deste ano, a relação entre dívida bruta e lucro antes de juros, impostos, depreciação, amortização e leasing (Ebtidar) subiu de 6,2 vezes para 8,6 vezes.
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“Um ano atrás, o ambiente macro econômico era bem mais amigável para a Gol, com dólar abaixo de R$ 2,30 e preços de petróleo com viés de baixa. Mas em 2015, o ambiente piorou dramaticamente, criando uma tempestade perfeita”, aponta o analista do Credit Suisse, Felipe Vinagre, que rebaixou o preço-alvo da ação da Gol, de R$ 20 a R$ 5,50.
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Nos primeiro seis meses deste ano, a receita líquida da Gol caiu 5%, a R$ 4,6 bilhões, ante igual período de 2014, enquanto o prejuízo líquido quadruplicou, batendo R$ 1 bilhão. Foi nesse contexto adverso que no último dia 24 de agosto a agência de classificação de riscos Standard & Poor’s (S&P) rebaixou a nota de crédito da Gol de “B” para “B-“. Para a firma, a variação cambial que aumentou os custos operacionais e a dívida da Gol limita a habilidade da companhia para gerar caixa.
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Mas a S&P manteve uma perspectiva estável para a Gol porque acredita que os esforços implementados pela empresa para melhorar a liquidez e suavizar o calendário de amortização de dívida devem compensar as incertezas nos próximos 18 meses.
“A estratégia operacional da Gol está correta, buscando aumentar receitas no Brasil e também fora do país. Mas a crise econômica tem atrapalhado esse processo”, pondera Bernardes Jr, do BB. O Produto Interno Bruto (PIB) do país teve queda de 1,9% no segundo trimestre deste ano, na comparação com o primeiro trimestre, após retração de 0,7% de janeiro a março.
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A Gol já vem tentando há dois anos elevar as receitas em moeda estrangeira e o caixa da companhia. Ampliou de 4 para 11 os acordos de compartilhamento de voos com empresas estrangeiras, como Qatar, Aeromexico e Korean Air, e recebeu aportes da americana Delta Air Lines e da franco-holandesa Air France-KLM, que passaram a deter, respectivamente, 3% e 1,5% do capital da brasileira.
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Já neste ano, em julho, a Gol anunciou um acordo para reforçar a posição financeira da companhia em até R$ 1,5 bilhão. Além de acompanhar a família Constantino no aumento de Capital, a americana Delta Air Lines se comprometeu a adquirir as ações não subscritas pelos minoritários e ainda garantir um empréstimo de US$ 300 milhões que a empresa fará com bancos.
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Procurada, a Gol não quis fazer comentários sobre os preços das ações. Mas no fim de julho, quando comentou o desempenho operacional da companhia, o vice presidente financeiro e de relações com investidores da aérea, Edmar Lopes, disse que o cenário atual requer cautela, mas acreditava que “o fundo do poço” já havia sido atingido em termos de tarifas.
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O executivo manteve inalterado o objetivo para o ano de 2015, anunciado em março, de alcançar uma margem de lucro antes de juros e impostos (margem Ebit) de 5%. “A Gol tem caixa para superar esse momento difícil. Acredito que a partir de outubro, a situação da companhia comece a melhorar”, afirma Mario Bernardes Jr, do BB Investimentos.


