Promoções e viagens no país ajudam agências

Por João José Oliveira | De São Paulo

As empresas de viagens estão ampliando promoções para evitar que a reta final do ano seja de forte retração. A aposta dos empresários é nos destinos domésticos para compensar queda na procura pelo exterior. “O país está em crise e todos os setores sofrem. Mas se o internacional está caindo 20%, o doméstico pode crescer mais que isso”, diz Luiz Falco, presidente da CVC, maior operadora de viagens do país, na qual destinos domésticos subiram a 70% das vendas da marca, ante 35% um ano atrás. Segundo o Banco Central, os gastos de brasileiros em viagem ao exterior em agosto somaram US$ 1,3 bilhão, queda de 46,3% ante mesmo mês de 2014.

A CVC reforçou o estoque de roteiros domésticos, fechando acordo com as companhias aéreas para fretar mil voos entre dezembro e fevereiro, volume 15% maior que no ano passado. “Estamos com 300 mil lugares extras no país, 60% da oferta no Nordeste”, disse o vice-presidente da CVC, Valter Patriani. O mesmo quadro é visto na TAM Viagens, onde a fatia de vendas de destinos domésticos passou de 45% para 53% este ano, apontou o diretor geral da rede, Marcelo Dezem.

Na Flytour Viagens, um das cinco maiores do turismo nacional, o plano também é reforçar o mercado doméstico. A rede faz no próximo fim de semana, em Santos (SP), um feirão para queimar mais de 3 mil pacotes a preços até 50% mais baratos que no balcão das agências do grupo.

“As pessoas não deixam de viajar, mas ajustam a viagem ao orçamento. O feirão traz quem já tinha decidido viajar e procura promoções”, disse o presidente da Flytour Viagens, Michael Barkoczy, sobre o evento. Segundo ele, os destinos domésticos representam hoje cerca de 80% das vendas no grupo. “Um ano atrás, os destinos domésticos eram 65% de nossas vendas”, comparou.

A cada pico do dólar ante o real, o turista brasileiro fica mais receoso de viajar para fora. “No primeiro momento, o turista ajusta a viagem ao orçamento, trocando um hotel 4 estrelas por outro 3 estrelas ou reduzindo os dias do passeio. Mas quando a janela de compra é mais longa, aumenta fortemente a demanda por destinos domésticos”, diz o diretor da Hoteis.com para América Latina, Juan Pasquel.

A Agaxtur, que ano passado vendia 95% dos pacotes para o exterior, nos últimos 30 dias tem comercializado 25% das viagens para destinos domésticos. Com foco no público de alta renda, a agência aumentou o leque de opções em resorts, hotéis premium e destinos exclusivos. “Estamos embarcando para o exterior 20% menos, mas compensamos isso com uma receita maior em real, com mais vendas para o doméstico”, conta o presidente da Agaxtur, Aldo Leone. Segundo as agências, entre os brasileiros que mantêm a decisão de viajar ao exterior há uma parte que busca destinos mais próximos, como América Latina.

O diretor de Turismo da República Dominicana, René Contreras, por exemplo, diz que o desembarque de brasileiros no país este ano está 28% superior a 2014, quando 114 mil turistas viajaram do Brasil para a ilha. “Nosso produto tem um custo-benefício altíssimo”, disse ele sobre preço de passagem aérea, hospedagem e compras. Parte dessa demanda caribenha é atendida pelos cruzeiros, que transportaram 549,6 mil turistas na temporada passada. A MSC, líder do setor no Brasil, aumentou a oferta em 20% para a temporada que vai de novembro próximo até maio de 2016, com 107 mil cabines. “Mas para segurar a demanda congelamos o dólar a R$ 2,99”, disse o diretor comercial da MSC, Adrian Ursilli.
O executivo disse que para driblar o encarecimento do dólar, a MSC também vai apostar em cruzeiros mais curtos, de fim de semana, com tíquete médio menor. Esses roteiros serão 35% de toda oferta da empresa.

“O mini cruzeiro é o grande volume porque o desafio são os cruzeiros mais longos”, disse Ursilli, que calculou uma queda de 10% nas vendas feitas no primeiro semestre para a próxima temporada. “Com as promoções tivemos uma recuperação das vendas neste segundo semestre”. Concorrentes diretos dos cruzeiros porque combinam hospedagem e entretenimento, os resorts brasileiros aproveitam o fato de terem custos e receitas cotados em reais para escapar da crise. Mesmo assim, o setor também tem usado as ofertas. Tanto que em junho, a taxa de ocupação cresceu 7,3%, mas a receita média teve retração de 25%. Poderíamos ter um desempenho bem pior, mas os números mostram que não foi tão agudo o reflexo da crise. A hotelaria, de modo geral, está se beneficiando de fatos como o aumento do dólar”, disse o consultor da Associação Brasileira de Resorts, Antonio Carlos Bonfato, responsável pelos estudos do setor.

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