Termos de oferta de troca de bônus dividem executivos da Gol

Há uma divisão entre executivos da Gol sobre como proceder na negociação com os investidores estrangeiros donos de US$ 780 milhões em bônus da companhia que foram chamados a trocar esses papéis por títulos de uma nova colocação. Até agora a empresa não conseguiu uma adesão significativa à oferta de troca dos papéis e ontem adiou o prazo final pela segunda vez, para 15 de junho. Uma das correntes, sustentada pelo presidente da Gol, Paulo Kakinoff, tem se mostrado menos flexível, e a outra, encabeçada pelo vice-presidente financeiro e de relações com investidores, Edmar Lopes, prefere uma postura mais ajustável. Ontem, as ações da Gol fecharam com alta de 9,02% na BM&FBovepsa, cotadas a R$ 2,78, com giro de R$ 29 milhões.

Do ponto de vista da companhia, quem aceitar a troca oferecida pela Gol pode partir do pressuposto de que a empresa corre considerável risco de quebrar – por esse raciocínio, é melhor ter um ativo com garantias do que deter títulos sem colaterais e, assim, segurar a lanterna de uma longa fila de credores, que começa com governos e funcionários e passa por muitos outros interessados antes de chegar aos agentes de mercado de capitais.

Como os novos títulos que a Gol oferece em troca dos papéis em circulação têm um colateral – peças de aviação, avaliadas em mais de US$ 220 milhões, sem as quais a Gol não consegue operar -, encarteirar os novos ativos pode também ser visto como um bom negócio, mesmo que aderir ao programa represente realizar um prejuízo de 30% a 70% em relação ao valor de face dos bônus.

A Gol alega que sua oferta de troca representa na verdade um prêmio de 5% a 50% para os investidores, pois os títulos em circulação vêm se desvalorizando desde que a companhia passou a queimar caixa, atingida pela valorização do dólar ante o real – de 40% apenas em 2015. A alta infla o passivo da aérea, que tem 80% de suas dívidas e 50% de suas despesas operacionais em moeda estrangeira – e pela recessão brasileira, mercado onde faz mais de 85% de sua receita.

Essa é a tese que pode ter estimulado os donos de 17,3% dos títulos em circulação a terem aceitado a oferta de troca até agora. Mas faltam ainda outros 82,7% de papéis a ser trocados. Ou, pelo menos, 77,7% dos títulos em circulação, uma vez que a Gol quer atingir a meta de 95% de adesão nessa operação. O detentor de bônus que decide ficar com os atuais títulos pode entender que a Gol vai sair dessa conjuntura adversa antes de quebrar.

Isso ajuda a explicar, em parte, por que donos de cerca de 20% dos títulos em circulação têm se colocado desde o primeiro momento radicalmente contra a oferta da troca. Representados por um grupo de firmas lideradas pela americana White & Case, esses investidores dizem que a Gol está sendo dura e surda na condução do programa de troca de dívida. Eles querem conversar com a companhia, entender o processo de reestruturaçã o de endividamento de
forma mais ampla e, claro, obter uma melhor condição de troca. “Estamos numa corrida para ver quem acaba primeiro; o caixa ou a crise. Uma hora a crise tem que acabar”, admitiu um executivo da Gol sobre a conjuntura de retração da demanda na aviação, em queda há nove meses seguidos, a pior sequência desde 2003. Segundo ele, “adoçar” ou não a oferta aos investidores é uma questão que tem causado divergências internas até porque há investidor comprando títulos no mercado secundário – onde os papéis estão com deságios de até 80% – para entregar à Gol e faturar o “prêmio”. Por enquanto, a companhia vem apenas esticando a corda do prazo, de 1º para 8 de junho e, agora, para o dia 15. O adiamento, inclusive, pode voltar a ocorrer, embora a tendência é que mais protelamentos fortaleçam a demanda dos investidores por ajustes nos termos da operação de troca.

A Gol considera a troca dos bônus emitidos no exterior o pilar do programa de reestruturação de toda a dívida da companhia. A meta é diminuir a alavancagem, estancar a sangria de caixa e sanar o balanço. A Gol encerrou o primeiro trimestre do ano com dívida bruta ajustada de R$ 16,2 bilhões, ou 9,4 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação, amortização, depreciação e leasing. Um ano antes, essa relação estava na casa de seis vezes. A empresa encerrou o primeiro trimestre de 2016 com R$ 1,8 bilhão em caixa, comparado a R$ 2,8 bilhões no mesmo período do ano passado. Além da troca de títulos, a Gol renegocia debêntures com bancos brasileiros, contratos de leasing, cronograma de investimento em frota, com a Boeing, e contratos com outros fornecedores, como de manutenção.

VALOR
Por João José Oliveira | De São Paulo

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